Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

Lehman Brothers e Merrill Lynch

No início de 2008, existiam 5 grandes bancos de investimento nos EUA, os quais beneficiaram largamente nos últimos anos da sua actividade de intermediação, em parte associada ao financiamento do sector imobiliário norte-americano. Da mesma forma que cresceram com a bolha imobiliária, foram vítimas do rebentamento da mesma a partir do Verão de 2007.

Ao contrário dos bancos de serviço universal, que contam com actividades diversificadas, incluindo uma ampla base de depositantes, os bancos de investimento estão exclusivamente dependentes dos mercados de capitais (acções e obrigações) para financiar a sua actividade.

Nos últimos meses, com o agravamento das perdas relacionadas com a actividade de crédito, tornou-se crescentemente difícil o acesso a novos capitais próprios, o que limitou substancialmente a capacidade destes bancos em continuarem a funcionar de forma autónoma e colocou alguns deles em risco de falência.

A primeira falência foi evitada em Março de 2008, quando o Bear Stearns foi salvo através de uma aquisição por parte do JP Morgan Chase, apoiada por um financiamento da Fed.

No último fim-de-semana goraram-se as últimas tentativas de salvar a Lehman Brothers, cuja capitalização bolsista chegou a atingir 45,5 mil milhões de dólares em Fevereiro de 2007.
Fundado em 1850 por 3 emigrantes judeus alemães, sobreviveu às falências das empresas de companhas de ferro no século XIX, à Grande Depressão nos anos 30 e ao colapso do hedge fund LTCM em 1998, mas não resistiu à crise subprime que ajudou a criar.

A acentuada quebra da sua cotação, a crescente dificuldade em efectuar contratos com contrapartes, a dificuldade de vender activos imobiliários e a sua unidade de gestão de activos financeiros, bem como a impossibilidade de encontrar um comprador, levaram à decisão de pedir protecção dos credores no dia 15 de Setembro, deixando 25.935 trabalhadores (que detinham um terço do capital) no desemprego.

Os credores obrigacionistas, que detêm 613 mil milhões de dólares de dívida da Lehman Brothers, poderão receber cerca de 60% do valor investido, segundo a CreditSights Inc.

Ao contrário do que aconteceu com o Bear Stearns e com a Freddie Mac e Fannie Mae, as autoridades norte-americanas não aceitaram intervir no processo de recuperação da empresa, o que poderia ser considerado como sinal de que qualquer instituição financeira seria salva pelo governo, utilizando o dinheiro dos contribuintes.

Para evitar o mesmo destino, a Merrill Lynch (cuja cotação havia desvalorizado 36% em apenas 1 semana) chegou a acordo para ser adquirido pelo Bank of America, por cerca de 50 mil milhões de dólares, por troca de acções, antes da reabertura do mercado no dia 15 de Setembro, pondo fim a 94 anos como banco independente. Para o interesse do banco comprador, foi decisivo o vasto negócio de corretagem da Merrill Lynch nos EUA (16.690 corretores), bem como a sua participação em perto de 50% na Sociedade Gestora de fundos BlackRock, avaliada em 24 mil milhões de dólares.

Assim, em 6 meses, os 5 grandes bancos de investimento norte-americanos ficaram reduzidos a apenas 2, a Goldman Sachs e a Morgan Stanley. No actual cenário, de difícil acesso ao mercado de capitais, parece ser cada vez mais provável o seu “casamento” com um banco universal, à semelhança do que aconteceu com o Bear Stearns e a Merrill Lynch.

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